ENSAIOS E ARTIGOS

 

 

A febre dos portais jurídicos

 

 

Como muitas outras áreas, o setor jurídico assistiu a um verdadeiro “boom” no início dos anos 90. Se antes os advogados eram limitados pela simples rotina processual (escritório-tribunal-escritório), hoje seu ofício é comparativamente multi-tentacular. A abertura do mercado às importações e ao capital estrangeiro, a regulamentação e privatização de diversos setores, como energia, mineração, telecomunicações entre outros, a instituição de direitos sociais como a criação do Código de Defesa do Consumidor e a emergência de novas e variadas tecnologias de informação, com seu ápice no advento da web, deu uma nova amplitude ao que se conhece como atividade jurídica.

 

No rastro destes eventos, houve igualmente uma explosão de cursos e faculdades de Direito, de modo a absorver a demanda e “formar” profissionais para atendê-la. Da mesma forma, também ocorreu uma grande mudança na dinâmica e no perfil das associações entre os advogados, representada pelos escritórios jurídicos. Nos início dos anos 90, escritórios que contavam de 5 a 10 advogados passaram a contar com mais de 50 no final da década. 40.000 novos advogados invadem o mercado a cada ano no Brasil e a OAB – Ordem dos Advogados do Brasil – já contabiliza em torno de 500.000 (pasmem, meio milhão) de advogados praticantes.

 

Esse crescimento é compreensível face às configurações econômicas, políticas, sociais e empresariais da década passada. Para dar conta dos processos de reclamação de consumidores; regularizar setores inteiros, assim como a chegada de empresas estrangeiras, as vendas das que se privatizaram e a fusão de inúmeras outras; tratar de questões polêmicas como clonagem, transgênicos, crimes digitais etc., surgiu inevitavelmente um verdadeiro exército de advogados. Como o leque de áreas jurídicas foi ampliado, muitos escritórios jurídicos, antes reconhecidamente generalistas, foram obrigados a especializarem-se em uma ou outra área, fosse Tributária, Família, Trabalhista etc.

 

Na mesma proporção, surgiram inúmeras empresas com vários produtos e serviços voltados para o mercado jurídico. Desde boletins jurídicos, passando por notícias, cursos e eventos, a lista de ofertas ficou interminável. Por sua vez, os escritórios perceberam que além da especialização, a atualização era um fator chave para a prosperidade. Isso significava que, necessariamente, deveriam consumir tais produtos. Pronto! Foi o bastante para a eclosão de sites e mais sites jurídicos. Uma verdadeira febre: uns mais simples, outros verdadeiros portais, supermercados jurídicos. Além disso, veículos impressos também criaram seus respectivos sites: mais jornais e revistas jurídicas on-line.

 

Sites e portais jurídicos, basicamente, oferecem alguns produtos e serviços:

 

-Notícias atualizadas;
-Banco de dados com Jurisprudências (decisões dos tribunais), -Legislação e Doutrina (como é conhecida no jargão da área a produção intelectual);
-Indicadores Financeiros;
-Dicionários;
-Cálculos simulados;
-Tabelas de honorários advocatícios;
-Links diversos.

 

Estes foram – e em muitos casos ainda são – os conteúdos básicos oferecidos por estes sites, mediante assinatura, que foram consumidos avidamente por advogados e escritórios. Este foi o problema! Muitos advogados gostam de ostentar e impressionar seus clientes exibindo seus aparatos de informação com o intuito de passar impressão de profissionalismo, atualização, especialização, enfim, mostrar sua “qualidade”. O resultado foi que a grande maioria torrou recursos assinando estes portais, ficando descontentes e frustrados com o resultado – entenda-se aí o retorno sobre o investimento – uma vez que se perdiam em seus conteúdos, genéricos e abrangentes demais. Como era de se esperar, além de abandonarem tais produtos e serviços, cancelando suas assinaturas, ficaram irremediavelmente desconfiados de toda e qualquer empresa que oferecesse este tipo de serviço.

 

Estas empresas, por seu turno, acabaram quebrando por um ou mais motivos:

 

-Não compreendiam as reais necessidades de informação de seus clientes;
-Não atualizavam de forma satisfatória seus sites e portais;
-Não exploravam de modo pleno os recursos disponíveis em TI;
-Não personalizavam seus serviços.

 

Da mesma maneira que surgiram, vários portais foram extintos, tal como a bolha das empresas “pontocom” americanas no fim da década passada, muito embora por outro motivo: com os advogados e escritórios jurídicos teriam um mercado cativo, consolidado. Pecaram, pois, na incompetência. Generalizavam em vez de personalizar. Advogados e escritórios são diferentes, têm perfis diferentes, campos de atuações diferentes, tamanhos diferentes, exigências diferentes. Fizeram portais genéricos, visando abarcar todo e qualquer cliente. Além disso, muitos pecaram na falta de atualização freqüente, deixando seus clientes à deriva. Negligenciaram a interatividade que sistemas desta natureza proporcionam. Assim, inevitavelmente, deixaram de conhecer seus clientes e suas necessidades porque… generalizavam em vez de personalizar! O ciclo vicioso continuou até o fim… destes portais. Não que a generalização dos serviços seja um problema em si. A questão é que, generalizando, tende-se a oferecer um serviço mais superficial. A personalização, além de satisfazer o cliente, realmente atenderá suas necessidades. Isto é um fato mais do que comprovado.

 

Considerando a web metaforicamente como um lugar em que podemos “navegar”, notamos vários sites e portais jurídicos fantasmas, assim como todo bom oceano possui seus barcos fantasmas. Alguns deles ainda podem ser vistos in spectru na rede e a maioria foi “despejada” de seus servidores por abandono. Fazer comércio pela rede, por ser uma atividade relativamente nova no mundo moderno, requer cuidado redobrado. Comércio eletrônico é um empreendimento à queima-roupa, devendo-se aprender com os erros de ainda há pouco, pois aprender com os erros de ontem pode ser tarde.